domingo, 28 de dezembro de 2014

O que (não) é prioritário aprender sobre nossa própria língua?

Zé Simão dá a dica: " No Brasil todo mundo escreve errado, mas todo mundo se entende."

Diz o chavão: "o saber não ocupa espaço". 
Então, não faria mal dominar plenamente o padrão culto.

O caso é que há necessidades mais prementes.
Agora em dezembro recebemos a notícia de que a maioria dos alunos que prestaram o Exame Nacional do Ensino Médio receberam nota menor do que a média em redação.

(A maioria dos alunos recebeu... a maioria dos alunos receberam... que importa? E se ambas as formas forem "permitidas"?)

E a redação cobrada neste exame - argumentativa - é um dos tipos de texto que deveríamos conhecer bem ao concluir o ensino regular. Friso: ainda a questão não seria dominar plenamente, conhecer bem já seria um bom avanço, diante de nosso letramento precário.

Vale destacar que apenas 20% da nota do ENEM refere-se ao tal "padrão culto" da língua.

Se precisamos desenvolver tantas facetas para nos comunicarmos melhor e aproveitarmos tanta coisa boa que o estudo da língua pode nos trazer, inclusive o entendimento, por que focar demasiadamente o estudo na gramática normativa?

Lembro-me bem de quando lecionava. Grande parte dos alunos, já nas séries finais do ensino regular, apresentavam dificuldade com as regras mais básicas. Ao tratar de ocorrências de crase, por exemplo, eu sempre me questionava se não deveria estar trabalhando questões em que a deficiência poderia trazer maior prejuízo ao cidadão.

No entanto, talvez porque muitos professores ficaram conhecidos na mídia por atuarem boa parte de seu tempo de exposição com questões de "certo" e "errado", à luz da gramática normativa, ficou para muitos a impressão de que o profissional dessa área deve trabalhar o tempo todo com isso. 

O problema da "meia verdade" é o seu outro lado.

Tento fazer essa exposição aqui nesse espaço logo depois de perceber que uma professora, após ganhar destaque com página legal no Facebook e no Twitter, passou a fazer mais do mesmo. Deixou de abordar a questão da língua de forma mais ampla e passou a tratar com mais ênfase dos tais errinhos.

Em um dia explicava que devemos escrever "bem-vindo" e não "bem vindo".
(Deixou de lado uma outra opção - questão controversa!)
Em outra ocasião salientava a diferença, segundo o dito padrão culto, entre "bom dia" e "bom-dia". 

Até mesmo na página que o Superior Tribunal de Justiça mantém no Facebook agora optaram por dar dicas sobre questões gramaticais. Tratam, por exemplo, da regência e situações de uso do verbo "implicar". 
(E eu fico a imaginar quantas vezes o cidadão do povo usou esse verbo!)

Será que realmente não há nada mais importante para abordar prioritariamente?




Um comentário:

Andréa Motta disse...

Oi, Alexandre! Na verdade, não se trata de "fazer mais do mesmo", mas sim de não esquecer que o ensino de língua tem muitas facetas. Concordo com você: o profissional de Letras não pensa na gramática normativa o tempo todo, mas ela é uma das facetas do ensino.

Eu passei para desejar um ótimo 2015 e dizer que gostei muito desse texto! :)