quarta-feira, 29 de outubro de 2014

SALDO DA ELEIÇÃO

Por Ana Nunes

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Eu queria mandar um beijo pros amigos que tão de luto pelo Brasil, trocando foto de perfil e postando bandeira chorando. Eu entendo que é difícil. Pra você, que está achando duro aceitar a vontade da maioria, vai também meu lembrete carinhoso: a única alternativa a isso é não poder achar nada. Se achar, vai pro pau de arara ou pro paredón. Fique feliz, muito feliz, por poder xingar muito no facebook e no whatsapp: essa é uma puta conquista. Como dizia o velho Winston, meu conservador favorito, a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as outras. Aliás, pra você, amigo enlutado, eu vou deixar, além do lembrete, uma sugestão: a Folha publicou dia desses uma lista de cidadãos perseguidos pela ditadura. Tu já experimentou ficar de luto por eles também? Tente. Vai te ajudar a não desistir do Brasil.
Eu queria mandar um beijo também pra todos os amigos e conhecidos que estão aí falando em impeachment. Mas junto com o beijo vai o lembrete: num impeachment, gente, quem assume é o Vice-Presidente, não quem tirou o segundo lugar na eleição. Se você, partidário do impeachment, acha que um eventual governo Michel Temer ia extinguir o Mais Médicos, acabar com o bolsa-família e o Prouni, tirar o status de Ministério da SPM, exilar a população LGBT em Cuba ou seja mais o que for que faz seu coração ficar quentinho, think again. E se você acha que o PMDB é um partido melhor que o PT, só tenho uma coisa a te dizer: melhore.
Eu queria mandar mais um beijo - eita que eu tô beijoqueira hoje! - pros amigos que estão no mimimi do país dividido. Pra vocês, amigos queridos, meu lembrete : se teu candidato tivesse ganhado por 01(um) voto, não era país dividido, era o desejo do brasileiro por mudanças que foi legitimado nas urnas. Aproveito pra te lembrar, também, que tá difícil traçar a fronteira geográfica dessa divisão, como bem mostrou aquele infográfico da Folha. Se você ainda não viu o infográfico, procure, deve estar na sua TL: tem muita gente bacana que votou no Laércio que está compartilhando.
Eu também queria mandar um beijo pros amigos que estão no mimimi do PT tem que se reciclar. Claro que tem. Ganhou por dois PSoL de diferença. Mas também quero mandar pra vocês, com meu beijo, meu lembrete: muito mais que quem ganhou, quem perdeu é que tem que se reciclar. Se tem uma coisa que me deixou triste nessa eleição (depois do tumblr dos médicos, que o tumblr dos médicos é hors-concours), foi ver o PSDB topando encarnar o sonho de empoderamento dos discursos mais preconceituosos e raivosos. Quem quer ganhar eleição, no Brasil de hoje, tem que entender que não é só a economia, é o zeitgeist, stupid. Tem que entender que a mulher brasileira reconhece um sorrisinho de superioridade quando vê um e não tá mais a fim de tomar dedo na cara e ser chamada de leviana. Tem que entender que não se ganha nada ao chamar o eleitor de desinformado. Tem que entender que se render a esse pessoal que não abre a mente e aceita que gay também é gente pode minar uma candidatura presidencial (aliás, esse pessoal pode até eleger bancada parlamentar, mas não elege nem Governador, quanto mais Presidente.) Tem que entender que não dá mais pra ignorar as pessoas com deficiência ou se resumir à visão assistencialista que os dois candidatos mostraram no debate (assessorias: se cadastrando na newsletter da Inclusive Inclusão E Cidadania em 3,2,1...) Parte dessa autocrítica também é entender que não existe mais curral, nem em Pernambuco, nem no Maranhão, nem nas Gerais. O Brasil mudou nisso também.
Um beijo todo, todo especial, pros amigos que votaram pensando só no Merré. Pra esses, meu lembrete cheio de amor: a eleição não era pra SG. Que tal experimentar olhar um tiquinho pra fora do próprio umbigo de vez em quando?
Por fim, eu queria mandar um beijo enorme pro pessoal de todas as filiações ideológicas que saiu do FB, de grupos de whatsapp ou deu unfollows maciços. Não adianta querer criar a ilusão de que se vive numa bolha, confortavelmente cercado só por gente que pensa igual à gente. Que tal abrir o coração, ouvir mais e tentar aprender a conversar sem ofender, em vez de tapar o ouvido e fazer lalalalalalalá? Precisamos todos aprender a conversar sobre política - e não só em ano de eleição.

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