sábado, 28 de novembro de 2009

Tome cuidado com eles...

Chamou-me a atenção o conteúdo de podcast, veiculado pela rádio CBN, no último dia 18, sob o título “Cuidado com as orientações de seu gerente”

Consta que um consumidor procurou o gerente de um banco, com intenção de investir em títulos públicos (Tesouro Direto), mas este disse que seria uma opção inviável, por conta dos impostos... E recomendou ao cliente que aplicasse em título de capitalização!

Penso que, tão condenável quanto o ocorrido, foi a resposta do comentarista da rádio ao ouvinte, que teria perguntado se o gerente agiu de má-fé. (clique e ouça).




Certamente, se a rádio tivesse consultado a assessoria de imprensa, a diretoria ou a ouvidoria do banco, diriam que foi algo “pontual”, contrário à política da empresa ou reprovariam, de certa forma a conduta do bancário. Pelo menos o discurso padrão é este.

Mas no podcast foi feita comparação com um vendedor de loja, que oferece sempre um produto mais lucrativo para o patrão, que precisa “pagar aluguel e salário...”. No comentário, nem uma palavrinha sobre a ganância pelo lucro, a qualquer preço, nada sobre a crise de valores reinante e nada também sobre a falta de solidariedade...

É importante lembrar que, ainda que a rádio trabalhe com profissionais bem intencionados, parte da receita dela provém dos bancos, que são grandes anunciantes. E quando presencio estes episódios, sempre lembro da Salete Lemos, que perdeu emprego depois de ter dito o que julgava corresponder à verdade. (Recorde-se, clicando aqui).

Claro que é totalmente reprovável a conduta dos bancários e dos banqueiros de oferecer aquilo que há de pior para o cliente e que traz lucro rápido para a instituição. Tanto que jornalistas da mesma rádio, no mesmo dia, ao menos mostraram indignação, diante do ocorrido, em outro podcast, cujo título é “Bancos estão dificultando informações sobre Tesouro Direto” (ouça, clicando aqui).

Quanto ao título de capitalização, como ensina o Professor José Dutra Vieira Sobrinho, é muito ruim como sorteio (menos chances de contemplação do que muitas loterias “oficiais”, tendo em conta o valor investido) e péssimo como investimento.

E quanto à conduta do bancário, certamente não reprovada e até estimulada pelos banqueiros (com comissões ou promoções a quem vende algo que não presta), penso que cabe dizer o seguinte:
- princípios de boa-fé e transparência devem nortear todas as relações sociais, notadamente as de consumo (isto consta na letra e no espírito do Código de Defesa do Consumidor, mas parece incompatível com o capitalismo selvagem reinante, neste país);

-bancos são fornecedores, que tem o dever de informar adequadamente os clientes (dever quase sempre descumprido, por quem assim também descumpre a legislação);

- a letra do Código de Defesa do Consumidor proíbe o fornecedor de se prevalecer da condição do consumidor para impingir produtos e serviços, mas é justamente por conta de infração a esta disposição da legislação, que antes de tudo é anti-ética, que os bancos e muitos outros fornecedores conseguem parte de seus lucros exorbitantes;

- fazer afirmação falsa ou enganosa é crime, segundo o Código de Defesa do Consumidor, mas o noticiário não dá conta de gente sendo presa ou cumprindo pena, por conta disto;

Ou seja, o espírito e a letra da Lei Federal 8078-90, de ordem pública e interesse social, ainda estão no papel. No mundo fático são descumpridos e ignorados.

Observação 1: Mandei “e mail” ao comentarista da CBN, que se dignou a responder. Pediu que eu revisse o comentário. Acredita que “para meio entendedor, meia palavra basta”. Diz ter batido sutilmente no título de capitalização, e assim ter atingido muitos ouvintes, conforme comentários, na página do dia. Realçou que sempre foi crítico aos títulos de capitalização e um dos pioneiros também às taxas de administração de alguns fundos, bem como na defesa do Tesouro Direto. Por fim, salientou que sempre esteve de rabo preso com o ouvinte e só com ele. E que tem estilo diferente do meu, mas joga no mesmo time!

Observação 2: Além de mim outros criticaram a abordagem do tema, com também consta nos “comentários da página do dia”. Inclusive um engenheiro, que diz ter caído neste “conto da carochinha” e salienta serem muito específicas e técnicas tais informações.

Questiono:
Se até os mais letrados são enganados, o que dizer do que fazem com o povão?
Devemos apenas advertir os consumidores a não confiar nos fornecedores? (Tome cuidado com eles...)
Ou devemos também exigir melhor conduta e mais punição para os desvios, inclusive éticos?
Devemos esperar que, para ser respeitado, o consumidor – cidadão médio, a parte vulnerável da relação – tenha tantas informações ou até mais do que o fornecedor, a parte não vulnerável?

Observação 3: Se é que algo pode consolar, resta a dizer que, da demissão de Salete Lemos para cá, ao menos o consumidor passou a poder usar os serviços essenciais gratuitos, que permite a movimentação de contas bancárias, dentro de estreitos limites, sem pagar um centavo aos já bilionários bancos.




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