quinta-feira, 5 de março de 2009

SER livre (?)

Censurar um amigo pode equivaler a correr o risco de perdê-lo.

- "não ande com companhias (que eu considero) ruins";
- "me dê mais atenção";
- "não faça financiamento para comprar carro novo";
- "não tome sol entre 10 e 16h";
- "não se embriague";
- "faça caminhadas, ginástica ou natação";
- "cultive boa leitura";

Não importa se os conselhos são bons ou ruins, desde que imperativos, tem o condão de nos afastar até das pessoas mais queridas.

Hoje mesmo uma amiga disse que sou O chato. Fiquei assustado com uma declaração dessas, na lata! Sei que muitos pensam isso de mim... Ela também? Tudo bem... tem bastante crédito e um amigo chato...

A grande dúvida (que é mais uma certeza) é a seguinte:

VIVER fiel às convicções e ter certa liberdade e raríssimos amigos, pagando o preço, ou viver de simulacros, fingindo gostar do que não gosta, aceitar o que não aceita, com uma sensação ainda pior, apesar de "ter mais amigos"?

Fernando Pessoa dizia:

"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”

Concordo com ele, 100%! Sei que TODOS não irão morrer. Sempre sobrará um ou outros, poucos, bons, verdadeiros...
Bastará ou bastarão para que eu não enlouqueça, ao menos por falta de AMIGO(s).

Associado ao tema, deixo registrado este texto de Flavio Gikovate:



A CAPACIDADE DE SER ANTICONVENCIONAL

Entendida a liberdade como agradável estado de espírito derivado de uma coerência a maior possível entre idéias e atitudes, deveríamos tentar entender agora por que tal postura diante da vida é tão rara. E a primeira coisa que gostaria de assinalar é a seguinte: num período como o que estamos vivendo, o primeiro obstáculo à liberdade é a existência de uma enorme confusão no mundo das idéias; parece ser muito incomum que alguém tenha idéias definidas e claras, de modo que nessas condições sua conduta deveria refletir suas contradições internas; ou então o indivíduo se mantém em uma dada direção – apesar da contradição interna – até que clareiem melhor suas idéias.

Este aspecto é, a meu ver, secundário para a questão da liberdade; o básico é o temor do desafeto e das represálias em geral, ao qual está sujeito o indivíduo que não se comporta conforme os padrões usuais e tidos como aceitáveis. Estruturas sociais repressivas – e creio que são tanto mais repressivas quanto mais sofisticados os agrupamentos sociais – agem sobre cada indivíduo tal que o não comportar-se conforme as expectativas aparece sob a forma de não dispor dos meios materiais de sobrevivência em virtude de não encontrar trabalho. Comportamentos não convencionais determinam também a possibilidade de o indivíduo não ser amado, sendo esta uma das sanções quase que insuportáveis para os homens.

Assim, para sermos amados por nossos pais, colegas e parentes, teremos de agir de modo que não ofenda suas maneiras de ser e de pensar – sim, porque cada um toma a si como um modelo de perfeição a ser proposto especialmente para os filhos, apesar de que a própria pessoa pode se sentir brutalmente infeliz e insatisfeita. As represálias sociais são de tipo análogo: o indivíduo que não se comporta conforme o usual é rejeitado e desprezado; não poderá continuar a se sentir parte integrante daquela coletividade, além de ser punido em suas pretensões de ordem material.

De outra forma, pode se dizer que a liberdade se confunde com a capacidade de uma pessoa de prescindir do amor das outras. O medo da liberdade, presente em todos nós, não é infundado, pois em sociedades como a nossa cada um funciona como repressor dos outros, de tal forma que a liberdade confunde-se com desafetos e solidão.

Uma pessoa será, portanto, tanto mais livre quanto menos interessada e preocupada estiver com a opinião e, portanto, o afeto – das outras. Terá que estar suficientemente forte para suportar as represálias de todo tipo, mas principalmente a sensação de desamparo na medida que uma pessoa se perde de suas convicções – o que significa afastar-se da agradável sensação de liberdade – por temor das represálias, tenta recuperar algum tipo de prazer exibicionista através da busca de destaque social dentro das regras do jogo existente. E, ao perseguir tal objetivo – do qual já não está plenamente convencida –, tenderá a se afastar cada vez mais de suas idéias e pensamentos iniciais, de tal maneira que a sensação íntima é cada vez mais desagradável e insatisfatória; e isto será verdadeiro mesmo para aquelas criaturas que sucederem plenamente nesta busca de destaque social. Serão admiradas e invejadas pela grande maioria dos seus contemporâneos, porém se sentirão profundamente infelizes e frustradas; e mais profundamente solitárias, apesar de terem feito tais concessões para evitar essa dolorosa sensação.

(claro, coloquei meus grifinhos)

O mesmo Gikovate outro dia falou da diferença entre solitude e solidão. A primeira é um sentimento gostoso, de plenitude; a segunda, uma sensação de falta.

E prá terminar, Lobão!

ESSA NOITE NÃO

A cidade enlouquece sonhos tortos
Na verdade nada é o que parece ser
As pessoas enlouquecem calmamente
Viciosamente, sem prazer

A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não

As cortinas transparentes não revelam
O que é solitude, o que é solidão
Um desejo violento bate sem querer
Pânico, vertigem, obsessão

A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não

Tá sozinha, tá sem onda, tá com medo
Seus fantasmas, seu enredo, seu destino
Toda noite uma imagem diferente
Consciente, inconsciente, desatino

A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não

Um comentário:

Anônimo disse...

Um velho sábio chinês já dizia.

É melhor ser um chato presente do que um cara legal ausente.

O chato aceita a vida e corre o risco da interação humana.

O legal aceita a morte e fica parado na segurança da comodidade humana.

"Mutatis Mutantis"