quarta-feira, 7 de maio de 2008

DEVO ENTREGAR AMANHÃ (?)

São Paulo, 7 de maio de 2008.

Ao
Diretor da EMEF .............................
(Sr. ..................)

Após quase um mês de trabalho, cheguei à conclusão que não estou em condições de continuar lecionando.

Santo Agostinho, quando lhe perguntavam “O que é Deus?”, dizia: - Se me não me perguntares, eu sei, mas se me perguntares, eu não sei!

Não saberia explicar exatamente o que me levou a tomar tal decisão. Coisa mais de sentir. Poderia listar alguns fatores:

- deixei de ter tempo livre para pessoas e atividades que considero importantes;
- não conseguia preparar aulas do jeito que gostaria de oferecer aos alunos;
- com aulas abaixo da auto-crítica, não sentia boa receptividade da parte deles ou que ao menos reconhecessem valor nos trabalhos que propus;

Claro que é duro: abrir mão de um salário, ter decepcionado pessoas que acreditavam em mim...

Mas seria ainda mais difícil continuar cansado, triste, com sensação de impotência...

Optei por me preparar mais – procurarei pesquisar bastante, montar um conjunto de aulas diferenciado (inclusive com estratégias para contornar os problemas de sala de aula), para, em outra situação, voltar a lecionar.

Fiz o curso de Letras para ter segunda opção de renda, mas também por idealismo, por saber o quanto as pessoas sem instrução formal sofrem – vejo isso no dia-a-dia. Nossa gente precisa estar preparada para trabalhar, argumentar, para atuar como cidadãos, a exemplo do que fez hoje Dilma Roussef.

A indisciplina e o desinteresse de parte de um grupo de alunos, ainda que não componham maioria, são barreiras para mim ainda intransponíveis. Por outro lado, tenho consciência de que poucos lugares são melhores do que a escola para abrigar esta gente. Pena que, como disse um amigo, saibamos também que “a escola é apenas a escola, não é a salvação do mundo nem reformatório”.

Hoje, ao atender uma cidadã, perguntei sobre o filho dela, aluno de sexta série. Ela comentou, sem muito pesar, que o menino é dos bagunceiros, que nas reuniões os professores sempre reclamam. Disse que costuma, com o marido, dar broncas no garoto, que surtem efeito só por algum tempo. Os professores voltam a reclamar, o aluno diz que está sempre “apartando brigas”. Imaginei que ele se apresenta como um embrião de benfeitor da humanindade... Fiquei pensando no quanto a escola poderia ser mais produtiva se o desafio maior dos professores não fosse tentar manter os alunos dentro dos limites da convivência social. De repente, dei um sermão na mulher... Hoje, eu, que nunca havia faltado ao trabalho na vida, faltei. Não me reconheci. Percebi - não dá mais!

Agradeço sincera e primeiramente ao senhor, à Andreia e ao Laércio.
Adorei ter conhecido pessoas maravilhosas, especialmente algumas professoras (Ivana, Marcia, Cleide...) - gente que pode realmente servir como referência para os alunos: boa voz, caras boas, muito de bom por dentro.

Quanto aos alunos, são corajosos por procurar a escola à noite, muitas vezes cansados, depois de tantos anos ou depois de insucessos (caso dos mais jovens que, mesmo com os traços de certa forma repulsivos, ainda tentam...), alunos tolerantes com as condições precárias da escola pública... Cada qual com sua beleza, em alguns deles mais a aflorar!

Seguirei minha vida quase como antes: com o salariozinho de sempre, com horas livres para nadar, ler bastante, praticar a docência em outras condições...

A experiência, que não entendo ter sido negativa, foi uma daquelas capazes de alterar a personalidade .

Enfim, grato por tudo o que ocorreu, me despeço do pessoal da escola no campo profissional, com a esperança de que, no campo pessoal, possa eventualmente contar com vocês, da mesma forma que espero possam contar comigo.

Atenciosamente,


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